14 setembro, 2022

É cada vez mais frequente que empresas divulguem o seu próprio “credo”, mas qual é o significado e o conteúdo do credo católico❓

 É cada vez mais frequente que empresas divulguem o seu próprio “credo”, mas qual é o significado e o conteúdo do credo católico❓O que é um credo e por que a Igreja tem várias versões do seu credo❓


Como termo geral, um “credo” é basicamente um conjunto de declarações nas quais acreditamos. De fato, o termo vem diretamente do verbo latino “crèdere“, acreditar, e significa “eu creio”.

É cada vez mais frequente que empresas divulguem o seu próprio “credo”, ou seja, um manifesto dos valores em que a equipe acredita, assim como a sua missão e visão, ou o seu propósito e seus objetivos estratégicos.

Neste sentido, um “credo” é um conjunto de princípios, crenças e referências pelos quais se pauta uma pessoa ou um grupo de pessoas. Infelizmente, também é frequente que o “credo” divulgado por algumas empresas seja apenas uma peça publicitária que pouco ou nada se reflete na prática.


O que é um credo❓


A origem do “credo”, no entanto, é eminentemente cristã: em sua acepção mais específica, o credo é a síntese dos artigos essenciais do cristianismo, com a finalidade catequética de manter sempre claros para os fiéis os conteúdos fundamentais da fé. Ao recitar o credo, nós, cristãos católicos, professamos publicamente que acreditamos nas mesmas verdades em que a Igreja acredita. É por isso, aliás, que o credo também é chamado de “Profissão de Fé”.


Mas quais são os conteúdos do credo católico❓


Trata-se de um resumo da nossa fé em um só Deus, que, mesmo sendo uno, é também trino por ser Pai, Filho e Espírito Santo, assim como na Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, que é Deus Filho e que, tendo nos oferecido a salvação, julgará se a aceitamos ou recusamos. Por isso mesmo, cremos na Igreja por Ele fundada, na comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna.


Por que a Igreja tem várias versões do seu credo❓


O Catecismo nos lembra que a Igreja contou com numerosas redações do credo ao longo dos séculos, já que ela sempre buscou responder às diferentes necessidades dos diferentes períodos históricos. Isto se refere apenas à forma de redigir o credo, porque o conteúdo é sempre o mesmo: as verdades doutrinais que compõem o núcleo da fé da Igreja não mudam nem podem mudar.

Mesmo no tocante à redação, consolidaram-se na história da Igreja basicamente duas formas do credo católico:


o Credo dos Apóstolos (ou Símbolo dos Apóstolos), que é mais sintético;

o Credo Niceno-Constantinopolitano, que é mais detalhado.


Eis como o Catecismo nos apresenta cada um deles:


“O Símbolo dos Apóstolos, assim chamado porque se considera, com justa razão, o resumo fiel da fé dos Apóstolos, é o antigo símbolo batismal da Igreja de Roma. A sua grande autoridade vem-lhe deste fato: ‘É o símbolo adotado pela Igreja romana, aquela em que Pedro, o primeiro dos Apóstolos, teve a sua cátedra, e para a qual ele trouxe a expressão da fé comum'” (Catecismo da Igreja Católica, número 194).


Quanto ao Credo Niceno-Constantinopolitano, o Catecismo registra:


“O Símbolo dito de Niceia-Constantinopla deve a sua grande autoridade ao fato de ser proveniente desses dois primeiros concílios ecumênicos (dos anos de 325 e 381). Ainda hoje continua a ser comum a todas as grandes Igrejas do Oriente e do Ocidente” (ibid, número 195).


Uma antiga tradição, sem comprovação documental, conta que os doze Apóstolos teriam resumido as bases da fé cristã quando ainda estavam reunidos em Jerusalém. Para este fim, cada um teria ditado um dos 12 artigos do credo, assim dispostos:


Creio em Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra;

e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,

que foi concebido pelo poder do Espírito Santo e nasceu da virgem Maria;

padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;

desceu à mansão dos mortos e ressuscitou ao terceiro dia;

subiu aos Céus e está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,

de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espírito Santo;

na Santa Igreja católica e na comunhão dos Santos;

na remissão dos pecados;

na ressurreição da carne;

na vida eterna.


Essa tradição de que cada Apóstolo teria ditado um artigo não tem demonstração histórica, mas é fato que essa versão fundamental do credo tem origem nos primórdios da Igreja, ainda na época dos Apóstolos.


E quando se usa um ou outro credo na liturgia da Igreja❓


Não há uma norma rígida estabelecida para que se prefira um ou o outro credo, dado que ambos são oficiais e igualmente válidos, embora um seja mais resumido que o outro: depende mais dos costumes de cada país ou de cada tradição litúrgica. Em alguns lugares, por exemplo, o Credo dos Apóstolos é o mais usado no dia-a-dia, enquanto o Credo Niceno-Constantinopolitano é recitado em celebrações mais solenes ou especiais.

Faz alguns anos, porém, que o Credo Niceno-Constantinopolitano vem sendo cada vez mais adotado também no dia-a-dia por ser mais detalhado na exposição das verdades essenciais da nossa fé, o que corrobora nos fiéis a assimilação dessas verdades-chave.


O Credo dos Apóstolos.


Eis a redação do Símbolo dos Apóstolos conforme publicada no portal oficial de informações do Vaticano.


Creio em Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra

E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor

que foi concebido pelo poder do Espírito Santo;

nasceu da Virgem Maria;

padeceu sob Pôncio Pilatos,

foi crucificado, morto e sepultado;

desceu à mansão dos mortos;

ressuscitou ao terceiro dia;

subiu aos Céus;

está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,

de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espírito Santo;

na santa Igreja Católica;

na comunhão dos Santos;

na remissão dos pecados;

na ressurreição da carne;

e na vida eterna. 

Amém.


O Credo Niceno-Constantinopolitano.


Creio em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos. Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas. E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as escrituras, e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim. Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado; Ele que falou pelos profetas. Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica. Professo um só batismo para a remissão dos pecados e espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Amém.


Por que, no Credo, dizemos que o Filho está sentado à direita de Deus❓

(Artigo publicado em Catholic Herald, Stephen Bullivant, diretor do Centro Bento XVI para a Religião e Sociedade da Universidade de Saint Mary, na Inglaterra.)


Santo Agostinho e São Tomás de Aquino nos ajudam a entender essa questão


Se alguma vez você se perguntou o que significa a frase do Credo “subiu aos Céus, está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso”, esta notícia irá ajudar a dissipar essa dúvida.

Nesta nota, apresentamos cinco explicações oferecidas pelos doutores da Igreja Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino; e por um especialista inglês em temas eclesiais.


1. Estar sentado quer dizer “habitar”

Em sue Sermão aos Catecúmenos sobre o Símbolo dos Apóstolos, Santo Agostinho explica que a expressão “estar sentado” significa “morar”.

“Também os locais onde habitam os homens são chamados de ‘sedes’, e não é por isso que se fica ali sentado. Eles levantam, caminham. Não se está sentado e, todavia, tais locais são chamados de ‘sedes’. Assim também entendei o morar de Cristo à destra do Pai”, diz o santo.


Nesse sentido, Santo Agostinho afirma que nessa condição, Jesus “é bem-aventurado e pela beatitude lhe compete o nome de ‘destra do Pai’, pelo fato de que ‘destra do Pai’ significa exatamente felicidade”.

“Se quiséssemos compreender isso de modo material, deveríamos dizer que se Ele está assentado à destra do Pai, o Pai estará então à esquerda. É-nos lícito pensar que Eles se encontram assim? O Filho à destra, o Pai à esquerda? Lá tudo é destra porque não existe nenhuma infelicidade”, diz o Doutor da Igreja.


2. Deus Pai é “incorpóreo”


Enquanto o Filho tem um corpo humano glorificado, “o Pai é incorpóreo”.

Portanto, “não tem mãos nem lados para que o Filho se sente literalmente ao seu lado. Então, como muitas vezes ao tratarmos de questões religiosas, estamos falando aqui simbolicamente”.


3. Expressa o poder e a autoridade de Deus, em várias passagens da Bíblia esta frase é usada para expressar a “intimidade com o poder e a autoridade de Deus”.

Por exemplo, no Evangelho segundo São Mateus, Jesus recorda que o Salmo 110 indica: “O Senhor disse a meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos por escabelo dos teus pés’” (Mt 22,44).

Em sua Carta aos Efésios, São Paulo diz o seguinte: “E qual a suprema grandeza de seu poder para conosco, que abraçamos a fé. É o mesmo poder extraordinário que ele manifestou na pessoa de Cristo, ressuscitando-o dos mortos e fazendo-o sentar à sua direita no céu, acima de todo principado, potestade, virtude, dominação e de todo nome que possa haver neste mundo como no futuro” (Ef 1,19-22).

Sobre isso, esclareço que São Paulo não considera “a direita” como uma espécie de lugar subordinado no pódio divino. “Em vez disso, afirma que Cristo compartilha exatamente o mesmo poder e autoridade que o Pai”.


4. Cristo é plena e verdadeiramente Deus como é o Pai

Em terceiro lugar, Cristo não se “senta” à direita de Deus Pai Todo-poderoso como faria uma criança na sala de aula em frente ao professor. Ele se senta como o que é: um Juiz e um Rei.

“Ele está ‘sentado’ no sentido de estar instalado em uma posição de suprema honra e autoridade”.

Como assinala Santo Tomas de Aquino na Suma Teológica, citando São João Damasceno, “não supomos um lugar material quando falamos “à direita do Pai”. Pois, como poderia ocupar a direita, enquanto lugar, aquele que é incircunscritível? Porque direita e esquerda, materialmente falando, são propriedades dos seres circunscritíveis. Por onde, o que entendemos pela direita do Pai é a glória e a honra da divindade”.

Por isso, Cristo está entronizado como um igual ao Pai, porque é “plenamente e verdadeiramente Deus como é o Pai”.


5. Cristo feito homem mostra que viveremos na bem-aventurança divina


Jesus está sentado à direita do Pai como Deus feito homem.


Os Padres da Igreja como Santo Atanásio e São Gregório Nazianzeno repetiam constantemente que “Deus se fez homem, para que o homem se faça Deus”.


Nesse sentido, recordamos o que diz São Paulo em sua carta aos Romanos: “Se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com ele, para que também com ele sejamos glorificados” (Rom 8,17).


“Como tal, então em nosso legítimo lar no Céu, habitaremos na bem-aventurança divina, isto é, à direita do Pai, junto com nosso semelhante Jesus Cristo”.


Artigo publicado em Catholic Herald, Stephen Bullivant, diretor do Centro Bento XVI para a Religião e Sociedade da Universidade de Saint Mary, na Inglaterra.

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