14 setembro, 2022

ESCRITURAS, TRADIÇÃO e o CÂNON BÍBLICO (Stephen K. Ray ex-protestante)

Quais bases os protestantes têm para acreditar nos vinte e sete livros que compõe o Novo Testamento? A resposta que recebemos é: “Nós cremos neles porque eles são inspirados”.    Sim, mas como nós sabemos que eles são inspirados?  Haviam muitas 

centenas de escritos e epístolas passando de mão em mão, cidade a cidade, província a província no Império Romano. Havia o Evangelho de Tomé,  Pastor de Hermas,  Didaqué,  Epístola de Clemente,  Atos de Pedro, Atos de João,  Evangelho dos Hebreus,  Evangelho Secreto de Marcos,  Protoevangelho de Tiago, e centenas mais. 

Quem decidiu quais eram inspirados e quais não eram? 

Dizer que foi o Espírito Santo, não o homem, quem escolheu os vinte e sete escritos é colocar de lado a verdadeira questão – e isto não é uma resposta honesta. O Espírito Santo também é o autor da Bíblia, mas ele usou homens para escrevê-la. Do mesmo modo, ele usou o homem, a Igreja, para coletar e definir o cânon.


 Como eu indiquei antes, nem Jesus nem os apóstolos nos contaram quais livros pertencem ao cânon da Escritura e quais não. De fato, o Novo Testamento não nos dá nenhuma ajuda, absolutamente. Alguns, como Martinho Lutero, mantém que se Cristo é pregado em um documento, este é, portanto, inspirado; mas isto cai dura e rapidamente pois escritos espúrios falam de Cristo e referências em certas porções do Novo 

Testamentos parecem esparsas neste respeito. É por isso que Lutero possuía tão grande animosidade em relação à Epístola de Tiago.   


Muitos reformadores, quando enfrentavam este problema óbvio, reduziam sua resposta a afirmação de que um “testemunho interno” confirmava que os vinte e sete escritos eram inspirados e portanto canônicos. 

Alguns afirmavam que os documentos eram inspirados se eles fossem inspiradores para o leitor. Mas quão inspirados são Levítico, Filemom ou IIIJoão? Em comparação, muitos escritos antigos e modernos são muito mais comoventes e inspiradores. Poderíamos eliminar Levítico e incluir O Peregrino no cânon da Escritura?     Outro critério utilizado pelos protestantes é a apostolicidade; em outras palavras, é inspirado se foi escrito por um apóstolo.     Contudo, temos em nosso Novo Testamento o livro de Hebreus, cuja autoria é incerta e disputada até os dias de hoje.

Marcos e Lucas não eram apóstolos, ainda que quase um quarto do Novo Testamento foi escrito por eles. Já que seus nomes não estão inclusos no texto, como nós saberemos que Mateus escreveu Mateus, ou que João escreveu João?     Judas indica que ele não é um apóstolo.  As últimas duas epístolas de João afirmam serem sido escritas por um presbítero, não por um apóstolo. A maior parte do Novo Testamento parece falhar no teste “apostólico”. De uma perspectiva protestante, não há resposta satisfatória para esta questão básica do cânon, a qual é absolutamente fundamental. A crise perfura o próprio 

coração do protestantismo.

 Como citamos anteriormente, a posição protestante clássica como explanada por R.C. Sproul é: O protestante tem “uma coleção falível de livros infalíveis”.


Normalmente não se percebe que, até o final do quarto século, não havia uma lista final de livros canônicos, nenhum Novo Testamento estabilizado. O período de tempo entre a crucificação e a determinação canônica da Escritura é equivalente ao tempo entre a época em que William Shakespeare escreveu suas obras, até os dias de hoje. Os cristãos não possuíam uma coleção do Novo Testamento por quase quatrocentos anos depois da Ressureição de Cristo! 

Compare com outro exemplo recente da história americana. Passaram-se apenas duzentos anos desde a Revolução americana, mas parece que foi há eras atrás. Imagine se os documentos redigidos pelos fundadores dos Estados Unidos permanecessem incertos, ainda não coletados e codificados. O que poderia ser a base para a jurisprudência e governo constitucional hoje? Na Igreja primitiva, livros, epístolas e escritos eram disputados, não havia concórdia sobre uma lista de livros canônicos correta. Como os cristãos sobreviveram sem um Novo Testamento encadernado em couro debaixo de seus braços? Como eles floresceram e se espalharam por todo o mundo habitado? Como converteram todo o Império Romano? O Sola Scriptura era seu princípio fundamental e prático? Que regra de fé suficiente eles possuíam para governar a Igreja, ensinar os catecúmenos, resistir à heresia, todos os quais eles fizeram tão bem? A resposta para todas estas questões é, em resumo, a tradição apostólica, preservada através da sucessão apostólica dentro da Igreja Católica. Os escritos apostólicos eram uma parte integral, mas apenas uma pequena parte do depósito da fé inteiro.


Os protestantes dependem da tradição da Igreja Católica para seu Novo Testamento. Não foi assim até que a voz autorizativa da Igreja falasse que o Novo Testamento era declarado o cânon com os vinte e sete livros atuais. Isso foi realizado no Concílio de Hipona e no Terceiro Concílio de Cartago. A Igreja e todo o mundo teve então a primeira lista oficial dos livros canônicos – os escritos sancionados para leitura na Igreja Católica.    Os protestantes têm por necessidade confiar na determinação da Igreja Católica. Os protestantes precisam confiar na declaração da Igreja infalível para saber quais livros compõe seu Novo Testamento infalível. É uma grande ironia. É a autoridade e a tradição da Igreja Católica que estabeleceu o cânon deles. Contudo, enquanto rejeitam todos os outros decretos dos concílios como não autoritativos, os protestantes arbitrariamente aceitam sem questionar a tradição estabelecedora do cânon do Novo Testamento. Se a Igreja não possui autoridade para reconhecer e decidir quais escritos são inspirados e fechar o cânon, então nós não temos nenhuma garantia de que estes textos são, de fato, inspirados. Estes documentos poderiam simplesmente se tornar iguais a todos os outros escritos que afirmam ser inspirados por Deus. Se não há autoridade final, então qualquer pessoa ou seita que afirma ser hábil para discernir o que é inspirado se torna, necessariamente, livre do cânon do Novo Testamento – rejeitando ou aceitando livros à vontade. O “testemunho interno” subjetivo que muitos grupos afirmam possuir faz do indivíduo igual às Escrituras – O juiz pessoal da Escritura. Para ser honesto, aqueles que não reconhecem nenhuma autoridade eclesiástica obrigatória capaz de fechar o cânon deve respeitar qualquer cânon. Esta autoridade é a prerrogativa da Igreja de Cristo como fundada por Cristo e carregada pela sucessão de bispos debaixo da direção e proteção do Espírito Santo.

Do mesmo modo, se a Igreja não possui nenhuma autoridade de ensino para interpretar estes escritos inspirados, então qualquer interpretação individual e contraditória ou opinião é igualmente válida (desde que afirme vir do Espírito Santo), e isto anula completamente e nega qualquer existência de unidade ou sanidade no Corpo de Cristo e zomba da verdade e fé absolutas. Se a interpretação privada é o critério final, 

quem tem o direito de condenar os Mórmons ou os Testemunhas de Jeová, que estão 

interpretando a Bíblia de acordo com seus próprios princípios e julgamento privado?

Necessariamente, além do mais, cada um precisa negar que o outro têm o Espírito. “Se você tem o Espírito Santo guiando você em toda a verdade, você precisa certamente 

concordar comigo, mesmo que o Espírito Santo me leve a esta interpretação 

contraditória”. Nós estamos assim voltando à questão “O que este verso bíblico significa 

para você?"


À luz disso, é muito interessante que existam grandes movimentos em andamento neste mesmo momento para desafiar e reabrir o cânon da Escritura.  Desde que não há 

autoridade real no campo protestante, não há ninguém lá que possa autoritativamente 

resistir a tal desafio. Sobre quais bases os protestantes poderiam objetar à reabertura do 

cânon para a inclusão de escritos “inspirados” adicionais?  Sobre a base do “testemunho interno”?   Testemunho interno de quem?


Como protestante, eu havia permitido que as “tradições dos homens” invalidassem

a palavra de Deus. Os protestantes têm insistido em uma mentalidade do “este ou aquele” que coloca tudo em disparidade. Um exemplo disso é “Você pode crer ou na Bíblia ou na tradição”. O católico possui uma abordagem do “ambos”, que diz “Você pode crer em ambos na Bíblia e na tradição”. A posição protestante é como dizer “Você pode amar ou sua esposa ou seus filhos”. Dê uma olhada nesta distinção em outras áreas do ensino católico e teologias protestantes, e você irá encontrar isto consistentemente através de tudo.


Eu fiz uma defesa por esta porção prolongada da história, mais isto é fundamental e crucial. Estas questões foram a maior motivação para minha passagem para o Catolicismo. Essas foram as rachaduras que finalmente me levaram a derrubar a parede Fundamentalista que me impedia de ver a verdade da Igreja Católica.


Retirado de: “Crossing the Tiber: Evangelical protestants discover the historical church” de Stephen K. Ray.

Tradução: Bryan dos Santos

Postado (memória- José Lino Brito dos Santos)🕯


Resumindo


BÍBLIA CATÓLICA


AT - Cânon Hebraico (Tanack) com 46 Livros citados por Cristo e seus Apóstolos. 7 Livros são em grego e todos foram canonizados mais de 100 anos antes de Cristo. Traduzido para o Grego se tornou a Septuaginta que traduzida para o Latim, e somada ao NT, se tornou a Vulgata, Bíblia Católica que reinou sozinha por mais de 1.100 anos. 


NT - CÂNON CATÓLICO de 27 Livros e Cartas em grego canonizados pelo Papa Dâmaso I no ano 382.


BÍBRIA PROTESTANTI


AT - Cânon Judeu estabelecido no ano 70 d.C no Concílio de Jamnia que rejeitou os 7 livros escritos em GREGO afim de ridicuralizar o Cristianismo.

Vigorou apenas em Jerusalém pois os Judeus e Israelitas espalhados pelo mundo mantiveram a Tanack/Septuaginta.


NT - CÂNON CATÓLICO de 27 Livros e Cartas em GREGO canonizados pelo Papa Dâmaso I no ano 382.

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