16 setembro, 2022

Na oração do Pai Nosso o certo é dizer: "dívidas " ou "ofensas "❓

Há um provérbio popular que diz: "Ensinar o Pai-Nosso ao Vigário". 

Vivemos em tempos tão conturbados que este provérbio está se realizando "ipsis litteris", isto é, nas mesmas letras. Pois uns dizem: "Senhor Vigário, o senhor está errado porque está rezando no Pai-Nosso: 'Perdoai as nossas ofensas', e não 'dividas'". Já outros dizem: "Senhor Vigário, o senhor está errado porque está rezando no Pai-Nosso: 'perdoai as nossas dívidas', e não 'ofensas'".


Todos sabemos que foi Jesus quem ensinou o Pai-Nosso. Por isso é a oração mais perfeita e mais bela que existe. É a Oração do Senhor ou "Oração Dominical". "Dominus" em latim quer dizer "Senhor". Quão importante e necessário é que rezemos o Pai-Nosso como Jesus ensinou! Devemos rezá-lo não só com grande devoção mas também como Jesus rezou, portanto, com toda a fidelidade. Facilitá-lo é a finalidade desta postagem.


Dois Evangelistas relatam a passagem em que se narra como Jesus ensinou o Pai-Nosso: São Mateus (6, 9-13) e São Lucas (11, 1-3). Pelos estudos da Exegese parece que Jesus só se utilizou do aramaico, língua falada na Palestina naquela época, aliás muito parecida com o hebraico, idioma original dos judeus. Usava-se também o grego (língua da Ciência e da Filosofia) e o latim, por ser a língua oficial do império romano, ao qual estava sujeita a Palestina na época.


Concluímos com toda probabilidade que Jesus ensinou o Pai-Nosso em aramaico. São Mateus também escreveu seu Evangelho em aramaico. Já São Lucas escreveu o terceiro Evangelho em grego. São Lucas é o único que não pertence a raça judaica: nasceu em Antioquia, era médico e escrevia em grego. Possuía, inclusive, grande conhecimento desta língua, e o seu Evangelho, literária e historicamente, é o mais perfeito.


Quanto ao Pai-Nosso, os relatos de São Mateus e de São Lucas não são iguais: Lucas é mais sucinto. Por isso a Santa Madre Igreja adotou o de São Mateus completado com alguma palavra do de São Lucas. De São Mateus a Igreja adotou o Amém, segundo a Vulgata de São Jerônimo. Agora vamos ao ponto nevrálgico: "dívidas" ou "ofensas"?


Além de São Lucas, também São Marcos e São João escreveram em grego. São Jerônimo traduziu os quatro Evangelhos para o latim. São Mateus traduz empregando a palavra debita que quer dizer dívidas. São Lucas traduziu peccata, que quer dizer: "pecados". A palavra empregada no aramaico por São Mateus corresponde no grego à palavra ofeilémata, que em português quer dizer exatamente "dívidas". São Lucas, porém, não empregou esta palavra, mas a substituiu pela palavra grega martías, que em português quer dizer exatamente "pecado". São Lucas assim o fez (e como já dissemos ele tinha um conhecimento profundo do grego) porque "pecado" era mais claro para os leitores gregos, enquanto que a palavra ofeilémata (dívidas), sugeria-lhes a ideia de obrigação financeira.


Por sua vez, São Mateus empregou a palavra aramaica que significava "dívidas" porque no aramaico a noção de pecado exprimia-se correntemente pela palavra "dívida" para com Deus, e também para com o próximo, na maior parte dos casos. A demonstração mais clara disto é o exemplo do próprio Cristo Jesus, que usou a parábola dos servos devedores para mostrar que, se nós não perdoarmos as dívidas que nossos próximos nos têm, também Deus não perdoa os nossos pecados. – Logo depois de ensinar o Pai-Nosso, Jesus disse, como complemento: "Porque, se vós perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará os vossos delitos (ou pecados). Mas, se não perdoardes aos homens, tão pouco vosso Pai vos perdoará os vossos pecados  (ou pecados)". (S. Mateus, 6, 14-15).


Vemos assim que já nas origens, partindo das próprias palavras do Cristo, haviam as duas palavras. Isto explica o porquê das diferenças, – aliás mais superficiais do que reais, – nos diversos idiomas do mundo, ao se rezar o Pai-Nosso. A pesquisa demonstra o seguinte: em Portugal já se rezava "ofensas" (o Pai-Nosso num livro de 1940 e no 'Pequeno Manual do Catequista' do célebre teólogo Perardi, editado em 1955 em Lisboa, na gáfica União, traz o Pai-Nosso em latim ao lado da tradução em Português, e lá está: 'Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido'); na França se rezava "offences", isto é, "ofensas" (o Pai-Nosso em um livro de 1914); na Itália se rezava "debiti", isto é, "dívidas" (o Pai-Nosso num livro de 1960); na Espanha se rezava "deudas", isto é, "dívidas" ( Pai-Nosso num livro de 1928).


No Brasil se rezava "dívidas", e não "ofensas". Depois do Concílio Vaticano II, os bispos do Brasil decidiram passar a rezar de forma unânime dizendo "ofensas", como em Portugal (antes disso, missais de fins da década de 1950 também já usavam 'ofensas' no Brasil). D. Antônio de Castro Mayer, grande opositor dos modernistas e dos abusos cometidos após o mesmo Concílio, não teve dificuldade em aceitar a mudança e a impôs na Diocese de Campos; inclusive, ao imprimir o Catecismo, já usou o Pai-Nosso com esta modificação. O Padre Emanuel José Possidente, Vigário Geral emérito da Administração Apostólica S. João Maria Vianney e Diretor Espiritual daquele Seminário, sacerdote conservador, em 1972, ao imprimir seus "Planos de Aulas" ('Explicação do Pequeno Catecismo') faz a explanação do Pai-Nosso segundo a mudança, ou seja, usando o "perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido".


Numa posterior reunião do clero, um dos sacerdotes da atual Administração Apostólica São João Maria Vianney apresentou objeção, aceita no momento por seus pares. D. Antônio de Castro Mayer voltou atrás e mandou que se continuasse rezando o Pai-Nosso como até então sempre fora o costume no Brasil, com "dívidas" no lugar de "ofensas"1. – Aconteceu que , com a vinda do novo Bispo, D. Carlos Navarro, houve a famosa divisão na Diocese de Campos, porque o Bispo expulsou os padres da Administração de suas paróquias. Assim, o povo que ficou do lado do novo Bispo rezava o Pai-Nosso com a mudança ('ofensas') e os da Administração continuaram com a versão tradicional ('dívidas'). Isso criou no povo a ideia de que rezar "nossas ofensas" seria um sinal do famigerado progressismo dentro da Igreja, o que não é exato. Os próprios padres da Administração, porém, reconheceram que pela estudo exegético e histórico, a mudança realmente não envolvia progressismo. Quem poderia tachar de "progressistas" o Santo Cura d'Ars ou Santa Terezinha, porque rezavam : "Pardonnez-nous nos offenses, comme nous pardonnons à ceux qui nous ont offensés", (Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido)?


Portanto, tal diferença já havia antes do Concílio Vaticano II, e mesmo que tivesse advindo deste, não haveria daí nenhum problema. A realidade precisa ser vista objetivamente. Não sabemos dizer se a mudança ocorreu apenas no Brasil ou também em outros países onde que se rezava "nossas dívidas", mais isto também não é importante.


Postos os fatos, cabe acrescentar aqui algumas reflexões finais; elaboremos e aprofundemos alguns aspectos mais particulares da questão:


• No pecado, é preciso distinguir culpa e pena. Se dizemos "dívida", fica claro que há uma pena a ser saldada, além da culpa pelo pecado. Pelo Sacramento da Confissão, somos livres da culpa, mas não necessariamente da dívida, até que cumpramos a devida penitência. Quem peca, sem dúvida contrai uma dívida com Deus. Uma dívida que deve ser remida, seja por meio da penitência, da conversão mais perfeita que leva à mudança radical de ações e atitudes ou da reparação do mal cometido. Por este lado, vemos que dizer "dívidas" corresponde melhor ao sentido da oração ensinada pelo Cristo.


• Será que nós, seres humanos infinitamente pequenos diante da Majestade Divina, somos capazes de "ofendê-lo" no sentido vulgar, assim como ofendemos um vizinho ou um parente ao dizer uma palavra contra a sua honra? O Deus infinito –, Todo-Poderoso, Todo-Bom e Todo-Sapiente –, ficaria realmente "ofendido" (com a conotação que ordinariamente conferimos a esta palavra) pelos nossos erros e fraquezas? Claro que a ofensa a Deus existe, mas tem um sentido teológico todo próprio e diferente do que coloquialmente compreendemos desta palavra. Também por este lado, o uso da palavra "dívidas" parece mais perfeito.


•  Em nosso idioma, a língua portuguesa, uma dívida não sanada é por vezes entendida como ofensa e injúria, com o sentido de ação ou efeito prejudicial a outrem. Partindo deste ponto, não há diferença essencial entre dizer "dívidas" ou "ofensas".


Ao fim e ao cabo, parece que o uso de uma ou outra palavra não deve  ser motivo de disputas ou cisões no seio da Igreja de Cristo. A diferença e o fundamento de toda a questão está bem mais no sentido que conferimos ao vocábulo do que na forma propriamente dita. No português, esta língua tão complexa, "dívida" e "ofensa" podem ser, ainda que indiretamente, termos sinônimos. O dicionário Michaelis, por exemplo, dá esta descrição como o quinto sinônimo de "dívida": "culpa, débito ou pecado resultante dessa falta"2.


Oração rezado por Bento XVI 🙏

https://youtu.be/D4HbvbVlJUk


Fonte:

Informações da página mantida por sacerdote da Administração Apostólica São João Maria Vianney.

O Fiel Católico 

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